terça-feira, 11 de maio de 2010


DOS GESTOS SOLIDÁRIOS
Guida Linhares

Os gestos solidários fazem com que continuemos a acreditar na evolução da humanidade, por conta dos homens e mulheres de boa vontade. O que seria da vida se não existissem pessoas com o coração aberto, prontas a compartilhar bons momentos, ainda que dentro de si tragam angústias e problemas a serem resolvidos.

Tem gente que parece estar sempre de mal com o mundo e sai por aí, destilando veneno, pensamentos negativos e induzindo as pessoas a entrarem nesta nuvem escura, onde o sol nunca entra e portanto os pensamentos nunca se iluminam, nem pela luz da razão e nem pela saudável emoção, aquela que olha o outro como parte integrante do seu universo e que torce para que seja feliz.

Nos gestos solidários encontramos a grande força interna de cada um. Quando se estende a mão ao outro, seja para o afago, para o abraço, para o ombro amigo, significa que trazemos dentro de nós a fonte inesgotável do amor universal, que cresce quanto mais se doa.

Talvez aí resida o grande mistério das pessoas que fazem da sua vida um livro gostoso de ser visitado, onde cada um traz a sua gota de entusiasmo e alegria, e no final todos sentem-se extremamente gratificados pela solidária troca.

Quem apenas conhece o ponto exato onde fica seu próprio umbigo, e tudo fazem troca de alguma coisa, visando fins e não meios, sempre acaba ficando à deriva das melhores coisas que a vida pode oferecer, no convívio saudável e amoroso com todos aqueles que fazem parte do seu entorno.

E que venham muitos gestos solidários, a formarem uma fraterna corrente de Paz, Amor e Alegria, pois a vida é curta demais e cada segundo é precioso, para que belas páginas sejam escritas e os mais ansiados sonhos compartilhados e vividos em toda a sua plenitude.

Santos/SP/Brasil
03/05/10


quarta-feira, 5 de maio de 2010


LAMPARINA DA FÉ E DO AMOR
Guida Linhares

Na vida tudo passa....
porém o melhor de tudo
é que permanecem as saudades
das boas coisas que ela nos deu,
as dádivas que em algum momento nos abençoaram.

Contudo se deve viver o agora,
com a certeza de que se está fazendo
o melhor que se possa,
dentro das circunstâncias que se apresentam.

Assim sendo,
estaremos sempre amparados
pela lamparina da fé e do amor,
ardendo em nosso coração.

E quando o seu lume bruxulear,
que se renove a esperança
e se redobre a fé em Deus,
na certeza de que...
na vida tudo passa!


segunda-feira, 3 de maio de 2010


ESPELHO DAS ESTAÇÕES
Guida Linhares

Mulher tu és a primavera em explosão
de flores coloridas e perfumadas,
quando fazes valer a vóz do teu coração,
e levas a felicidade a pessoas por ti amadas.

Ainda que muitas vezes possas te sentir ferida,
pelos espinhos das rosas que trazes nas mãos,
ainda assim fechas os olhos e enternecida,
perdoas as falhas e deixas fluir a emoção.

Em teu coração os raios de sol são "calientes".
És sempre verão, aquecendo as entranhas,
daqueles que ao teu lado vivem contentes,
embora te sacrifiques, às vezes em perdas tamanhas.

E quando chega o outono da tua vida,
em que fazes o balanço de tudo o que te envolve,
nem sempre compreendida pelas pessoas queridas,
percebes que o tempo passa e de ti, o que se resolve?

Sentir-se bem consigo mesma, olhando-se ao espelho?
Materializar tantos sonhos há muito preteridos?
Talvez pensar mais em si mesma, um bom conselho,
observando as perspectivas de propósitos mais definidos.

Mas a mulher já vem ao mundo p`ra ser a mãe predestinada
aquela que, na maioria das vezes, se doa por inteira,
até mesmo a mulher moderna, em sua dupla jornada,
luta muito e seu cotidiano não é brincadeira.

E quando chega o inverno da sua trajetória,
tendo a felicidade de estar junto aos seus entes queridos,
toda a sua longa missão se reveste de muita glória,
e o seu legado de amor jamais será esquecido.

Mas não se pode olvidar que o inverno de tantas,
pode ser doloroso e cruel, quando a resposta é a solidão,
em que a vida as coloca, mesmo tendo sido sacrossantas,
e sobrevivem de lembranças do passado, encerradas em seu coração.

terça-feira, 27 de abril de 2010


NOSSA ETERNA CRIANÇA
Guida Linhares

Que esta criança cheia de dengo,
tenha olhos de ver alegria e bons motivos para sorrir.
Que veja a vida como um arco-íris pincelado a cada amanhecer.

Que o seu coração, tenha os pincéis do amor prontos a traçar caminhos
que levam à eterna ventura de sentir-se parte integrante da natureza,
plena de amorosidade e de um suave compartilhar de sonhos e quimeras.

Que Deus ilumine a criança que há em nós,
que gostava de brincar de esconde-esconde,
empinar pipas, pega-pega, amarelinha,
pisar nas poças d`água e bailar na chuva cantando.

Que ela possa rir de si mesma,
por ter caminhado tanto, entre alegrias e sofrimentos,
mas continuar sendo a eterna criança.



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quinta-feira, 22 de abril de 2010

DIANTE DA MORTE
Guida Linhares


Ela viveu uma vida dedicada à família, contudo guardava mágoas e tristes recordações da infância, que a perseguiram pelos anos e deixavam sempre marcas tristonhas em seu fechado rosto. Poucas vezes mostrava na face, a alegria pelo prazer de viver e por ter construído uma linda família.

Os fantasmas do passado permaneciam ao seu lado e de certa forma influenciavam seu estado de ânimo, e muitas vezes ela falava palavras rudes e de desalento, para quem estivesse ao seu lado. Tantas vezes se indispôs mesmo com as pessoas próximas, mas que a amavam muito e exercitavam a paciência e tolerância.
Eu a visitei algumas vezes ao longo dos anos e mesmo sentindo que nos gostávamos, ela sempre se mostrava distante e indiferente às palavras e aos toques carinhosos, mantendo um olhar desafiador, como se toda a verdade fosse apenas a sua.
Poucas visitas me fez, e com o tempo também fui rareando, pois o prazer que deveria ser a tônica da companhia era substituído por uma angústia pela não aceitação de uma mudança de ótica de vida, e por uma falta de intercâmbio, de aceitação de novas idéias.
Fazia anos que não a via. O filho ligou no começo de janeiro, para dizer que a mãe estava muito mal no hospital e fui visitá-la. A família lá estava carinhosa como sempre e ela na cama com aquele seu ar ausente, aquele orgulho de sempre estampado no rosto, aquele riso de desdém para com a vida.
Nos momentos em que ali estive fiquei refletindo sobre a felicidade que ronda as pessoas que muitas vezes nem se dão conta de que são felizes. Uma família unida, marido carinhoso e sempre presente, filhos que nunca deram trabalho e se tornaram homens de bem, noras amorosas e netos alegres, que muito a amavam.
Mulher feliz que conseguiu aglutinar em torno de si tantos seres queridos, mas que mesmo assim, conservou seus fantasmas do passado. Talvez se os tivesse eliminado, ao receber as bençãos da vida, tivesse vivido uma vida mais alegre, sentindo o quando era amada e o quanto a família se preocupava com ela e com seus instáveis estados de humor.
Fui a ultima pessoa a vê-la com vida na UTI, e nos momentos em que lá estive, procurei dizer palavras doces sobre a nova vida, já que ela estava resistindo à morte, há doze dias, para espanto dos médicos. Seu estado de saúde era muito precário, estava bastante inchada e respirando através dos aparelhos.

Senti que estava diante da morte, e pensei na fragilidade da vida. No quanto deixamos de fazer tantas coisas por conta do orgulho, da arrogância e da autosuficiência e perdemos a oportunidade de sermos mais felizes, em companhia dos parentes e amigos.
A vida é fugaz e passageira e a única certeza que temos, verdade absoluta, é que a nossa hora derradeira um dia vai chegar. Que nos encontre com a certeza de que tentamos fazer da nossa existência, um jardim florido e perfumado,onde as borboletas vieram celebrar a vida.

Santos/SP/Brasil
01/02/07



domingo, 18 de abril de 2010





SÓ DÊ OUVIDOS A QUEM TE AMA
Padre Fábio de Melo

Só dê ouvidos a quem te ama. Outras opiniões, se não fundamentadas no amor, podem representar perigo. Tem gente que vive dando palpite na vida dos outros. O faz porque não é capaz de viver bem a sua própria vida. É especialista em receitas mágicas de felicidade, de realização, mas quando precisa fazer a receita dar certo na sua própria história, fracassa.

Tem gente que gosta de fazer a vida alheia a pauta principal de seus assuntos. Tem solução para todos os problemas da humanidade, menos para os seus. Dá conselhos, propõe soluções, articula, multiplica, subtrai, faz de tudo para que o outro faça o que ele quer.

Só dê ouvidos a quem te ama, repito. Cuidado com as acusações de quem não te conhece. Não coloque sua atenção em frases que te acusam injustamente. Há muitos que vão feridos pela vida porque não souberam esquecer os insultos maldosos. Prenderam a atenção nas palavras agressivas e acreditaram no conteúdo mentiroso delas.
Há muitos que carregam o fardo permanente da irrealização porque não se tornaram capazes de esquecer a palavra maldita, o insulto agressor. Por isso repito: só dê ouvidos a quem te ama. Não se ocupe demais com as opiniões de pessoas estranhas. Só a cumplicidade e conhecimento mútuo pode autorizar alguém a dizer alguma coisa a respeito do outro.

Ando pensando no poder das palavras. Há palavras que bendizem, outras que maldizem. Descubro cada vez mais que Jesus era especialista em palavras benditas. Quero ser também. Além de bendizer com a palavra, Ele também era capaz de fazer esquecer a palavra que amaldiçoou. Evangelizar consiste em fazer o outro esquecer o que nele não presta, e que a palavra maldita insiste em lembrar.

Quero viver para fazer esquecer... Queira também. Nem sempre eu consigo, mas eu não desisto. Não desista também. Há mais beleza em construir que destruir.

Repito: só dê ouvidos a quem te ama. Tudo mais é palavra perdida, sem alvo e sem motivo santo.

Só mais uma coisa. Não te preocupes tanto com o que acham de ti. Quem geralmente acha não achou nem sabe ver a beleza dos avessos que nem sempre tu revelas.

O que te salva não é o que os outros andam achando, mas é o que Deus sabe a teu respeito.



PESQUISA

http://www.pensador.info/autor/Pe._Fabio_de_Melo/



SOPAS

Rubem Alves

Se Deus me dissesse para escolher a comida que eu iria comer no céu, por toda a eternidade, eu não teria um segundo de hesitação: escolheria sopa. Camarão, picanha maturada, salmão à Dali, os pratos mais refinados: tudo me seria insuportável após umas poucas repetições. Mas não é assim com as sopas. Posso tomar sopa por toda a eternidade, sem me cansar.

Minha relação com as sopas é mais que gastronômica: é uma relação de ternura. Elas me reconduzem à cozinha de minha casa de menino, ao fogão de lenha, às tardes de inverno. A janta (janta, mesmo; jantar é coisa de rico) era servida às 5 da tarde. Ah! Uma sopa quente que se toma numa tarde fria é uma lareira que se acende no estômago. O calor, aos poucos, se espalha pelo corpo. Com umas gotinhas de pimenta, então, ele se transforma em suor, e se a gente não usa o guardanapo a tempo, as gotas de suor na testa acabam por cair no prato da sopa...

Para mim a sopa é um sacramento de intimidade: um objeto físico, presente, no qual vive uma felicidade que se teve, ausente. A sopa quente me transporta para outros lugares, outros tempos. Faço e gosto de sopas frias. Sopa fria de maçã, por exemplo, tem um sabor exótico. Agrada-me ao paladar. Mas falta a essas sopas sofisticadas o elemento sacramental: elas não me levam a lugar algum. Falta-lhes o calor para me reconduzir ao espaço de intimidade.

Sopa é comida de pobre. Sopa fina, creme de aspargos, creme de palmito, sopa gelada de maçã, é nobreza posterior. As sopas fundamentais se fazem com sobras. Sobra, é só pobre quem guarda. Sopa é comida de guerra, de fome, quando qualquer raspa de comida é bem precioso, que não pode ser perdido. Rico não guarda sobra. Não precisa. É humilhante. Sobra de rico vai para o lixo. Sobra de pobre vai para o caldeirão de sopa. As sopas fundamentais se fazem com sobras, destinadas ao lixo. A sopa é uma poção mágica por meio da qual o que estava perdido é salvo da perdição e reconduzido à circulação da vida e do prazer.

A imaginação de Bachelard diz que a matéria também imagina. A água imagina arcos-íris. As sementes imaginam flores e árvores. O mármore imagina ‘Beijos’ (Rodin) e Pietás (Miguel Ângelo). O rios imaginam nuvens (Heládio Brito). As comidas também imaginam. O churrasco imagina espetos, facas, garfos: objetos fálicos, masculinos, infernais. O churrasco precisa de perfurações, cortes, dilacerações. As mandíbulas lutam com a carne. A carne resiste.

Já a sopa é mansa. Não é para ser comida. A colher é um côncavo, um vazio, o feminino. Nada é perfurado. O gesto é o de ‘colher’: a colher colhe, sem violência. Sempre tive implicância com uma etiqueta snob, para a tomação de sopa: que o delicado é tomar a sopa com o lado da colher, e não com o bico. Ora, ora - eu argumentava - por analogia a gente deveria comer comida sólida com o lado do garfo - o que não é possível. De fato. Não é possível. É que o garfo pertence à ordem dos talheres pontiagudos, perfurantes: entram pela frente. A colher pertence à ordem dos talheres discretos e modestos: entram pelo lado, mansamente...

Salvador Dali, quando menino, sonhava em ser cozinheiro. Preferiu a pintura e produziu suas maravilhosas telas surrealistas. O realismo, em pintura, se constrói sobre o pressuposto de que as coisas são aquilo que parecem ser, nem mais e nem menos. Os olhos, diante de uma tela realista, jamais experimentam a surpresa do impossível ou do impensado. O realismo confirma aquilo que os olhos comumente vêem. O surrealismo, ao contrário, acha que aquilo que os olhos comumente vêem é muito pouco: se olharmos com atenção perceberemos que as coisas são, ao mesmo tempo, o que são e também outras: elefantes se refletem nas águas de um lago como cisnes, cenários compõem o corpo erótico de uma mulher, o corpo de Cristo é transparente e através dele se vêem mares, montanhas e barcos. O realismo confirma o criado. O surrealismo recria o criado.

As sopas são a versão culinária do surrealismo. Tivesse realizado sua vocação primeira, Salvador Dali seria um especialista em sopas. Pois as sopas se fazem negando as coisas, na sua realidade natural bruta e transformando-as por meios das relações insólitas que o caldo torna possíveis. O caldo da sopa é o meio mágico que junta no caldeirão aquilo que, na natureza, nasceu separado. Creio ser impossível catalogar as combinações possíveis: fubá, trigo, batata, alho, cebola, nabo, cenoura, tomate, ervilha, ovo, abóbora, mandioca, cará, inhame, carne, peixe, galinha, mariscos, repolho, couve, beterraba, aspargo, palmito, feijão, arroz, queijo, azeitona, pão, maçã, abacate, temperos, pimentas, orégano, tandore - uma canja verdadeira não é canja se lhe faltarem algumas folhinhas de hortelã. E é preciso não nos esquecermos que sopa é a única comida que pode ser feita com pedra, como nos é relatado numa das estórias clássicas que se conta para crianças e adultos.

Gosto das sopas, ainda, por serem elas entidades do mundo dos magos, bruxas e feiticeiros. No mundo mágico não se usa churrasco. Magos, bruxas e feiticeiros fazem suas poções em enormes caldeirões de sopa, como é o caso de Panoramix, druida do Asterix e do Obelix, que prepara sua beberragem de força imbatível num caldeirão de sopa fervente.

Prefiro as sopas rústicas - e fazê-las me dá um grande prazer. A sopa de fubá em suas múltiplas versões, o caldo verde, a canja com hortelã, a multicolorida sopa de legumes: sopas são sempre uma alegria. As sopas rústicas dão permissão para se jogar nelas o pão picado. Haverá coisa mais feliz que isso? Reuno-me com alguns amigos, às 3as. feiras, para ler poesia, ao redor de um prato de sopa.

Uma última informação: sopas são remédios maravilhosos contra depressão. Quando a sopa quente, cheirosa, colorida e apimentada, bate no estômago, a tristeza se vai e a alegria volta. Não há melancolia que resista à magia de um prato de sopa...

(Concerto para corpo e alma, p. 69.)




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